O Brasil que mora na arquitetura

set 20, 2026

por Camila Bernadeli

Uma viagem por Minas e um olhar sobre o morar brasileiro

Em julho, nossas férias foram em Minas Gerais. Passamos por Mariana, Ouro Preto, Congonhas e Tiradentes.

Foi interessante revisitar lugares onde já estive em diferentes momentos da vida, por motivos distintos e com outras pessoas. Dessa vez, havia também um desejo especial: levar Helena para conhecer de perto uma parte tão importante da história do Brasil.

E, claro, uma viagem assim inevitavelmente me faria pensar em arquitetura.

Minas guarda um repertório de arquitetura colonial que encontramos em poucos lugares do país. Mas, ao mesmo tempo em que essa riqueza impressiona, também chama a atenção perceber como parte desse patrimônio parece carecer de preservação e cuidado.

Entre arquitetura, natureza e história

Ouro Preto e Mariana continuam oferecendo aquelas perspectivas que parecem impossíveis de separar da paisagem: ladeiras, telhados de barro, construções lado a lado, paredes de taipa, ruas de pedra e horizontes em que natureza e arquitetura se encontram.

É uma paisagem construída ao longo do tempo — uma mistura de Aleijadinho, Niemeyer e o povo.

Caminhar por essas cidades é perceber que a arquitetura não está apenas nos edifícios considerados importantes. Está também nos materiais, nas técnicas construtivas, na maneira como as casas ocupam o terreno e se relacionam com a rua e, principalmente, nos saberes acumulados por quem construiu esses lugares.

No conjunto que visitamos em Ouro Preto, encontramos uma casa lindíssima, com jardim, esculturas e espaços que permitem observar um pouco das formações do solo da região e compreender como funcionavam as áreas de extração do ouro e como viviam as famílias mais abastadas daquele período.

Patrimônio também precisa continuar vivo

Em Congonhas ficamos pouco tempo. A impressão que tivemos foi a de uma cidade que parece viver uma relação difícil com seu próprio patrimônio. O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos e as esculturas de Aleijadinho atraem visitantes, mas muitos chegam, conhecem esse conjunto e seguem viagem sem estabelecer uma relação maior com o restante da cidade.

Também nos chamou a atenção como produtos baratos e importados muitas vezes ocupam o espaço que poderia pertencer ao artesanato local. Enquanto isso, pessoas que ainda carregam conhecimentos ancestrais parecem permanecer à margem, apesar da enorme importância cultural desses saberes.

E talvez preservar uma cidade não seja apenas conservar suas fachadas.

É também permitir que seus conhecimentos, materiais, ofícios e formas de fazer continuem fazendo parte da vida contemporânea.

Tiradentes: tradição em movimento

Em Tiradentes encontramos outra atmosfera.

Há referências históricas mais preservadas e construções novas que procuram dialogar com esse contexto — ou, pelo menos, não agredi-lo. Mas o que mais chama atenção é perceber uma cidade em movimento.

Festas religiosas, manifestações culturais, gastronomia, design, arquitetura, artesanato, palestras, conversas, jantares, procissões, casamentos e música convivem nas mesmas ruas.

E tem ainda a incrível Companhia de Inventos, no Teatro Casa de Bonecos, que visitamos sempre que estamos na cidade.

Afinal, onde está a casa brasileira?

Voltei dessa viagem pensando muito sobre isso.

O morar brasileiro nasceu de uma mistura enorme de origens, culturas, materiais e conhecimentos. Técnicas construtivas europeias, africanas e indígenas foram se encontrando, sendo adaptadas e transformadas de acordo com o lugar e com aquilo que estava disponível.

Pedra-sabão. Madeira. Barro. Ferro.

Cedro-rosa transformado em personagens e imagens. Ferro curvado, gravado, desenhado, pesado. Bordados e rendas incorporados à nossa história. Madeiras brasileiras que hoje reconhecemos como verdadeiras relíquias naturais.

Talvez essa seja uma das imagens que mais ficaram comigo nessa viagem: perceber quantas camadas existem naquilo que chamamos de arquitetura brasileira.

Porque não se trata apenas de uma estética.

São materiais, técnicas, conhecimentos, histórias e maneiras de fazer.

E estamos cada vez mais distantes de muitos desses saberes.

Deixamos pisos de madeira ou de barro para comprar porcelanato. Trocamos barro e madeira pelo alumínio. Escolhemos materiais e soluções que poderiam estar praticamente em qualquer lugar do mundo.

E, nesse processo, algo nosso também pode desaparecer.

A casa brasileira não precisa pertencer ao passado

Talvez o ponto não seja reproduzir uma casa colonial, voltar no tempo ou rejeitar aquilo que é contemporâneo.

É justamente o contrário.

É entender o que podemos aprender com tudo isso para criar uma arquitetura brasileira de agora.

Uma arquitetura capaz de reconhecer nossos materiais, nosso clima, nossa cultura, nossos artesãos e nossas formas de viver — e reinterpretá-los de maneira contemporânea.

Porque a casa brasileira vai, aos poucos, sendo esquecida por muitos. E, ao mesmo tempo, começa a ser relembrada por outros.

Foi isso que trouxe comigo de Minas.

Nosso objetivo era rever uma parte do Brasil e apresentá-la para Helena. Conseguimos.

Voltamos marcadas pela viagem — e também muito felizes depois de tanto torresmo, cachaça e doce de leite.

Recomendamos?

Muito. A todos os brasileiros.

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